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A paixão do insólito nas Letras

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Nosso catálogo reúne autores que possuem essa singularidade, obras que deslocam perspectivas, atravessam fronteiras, abrem novos horizontes, refratárias às classificações tradicionais.

"Insólito designa, segundo a etimologia, tudo que é inusual e que sai do ordinário. A palavra mesma "insólito" me diz ao mesmo tempo mais e menos: me sugere, com efeito, algo raro, mas de uma raridade especial e incisiva que não se reduz a uma simples média baixa na avaliação estatística da frequência dos seres. Um ser insólito não é apenas raro e menos frequente que seus congêneres usuais. O que possui, então, para me fazer concebê-lo como insólito? Um objeto normal é reconhecido por sua conaturalidade em relação aos objetos que o rodeiam; um objeto insólito, por sua impossibilidade de aparentar-se a eles. É por isso que sua justaposição acarreta um fenômeno que se assemelha à sobreposição de dois mundos paralelos, comparável à do cinema quando funde duas cenas."

Clément Rosset

Fundada em 2023, a Átopos Editorial se compromete com a busca e difusão do insólito no pensamento e nas letras.

Entendendo que o insólito foge ao habitual, ao convencional e ao oficial, nos dedicamos a prospectá-lo por veredas inauditas, às margens, nas periferias, nos becos, nos subsolos, em lugares inexplorados: heterotopias privilegiadas, espaços de encontro e diálogo na alteridade e na diferença.

Seja em filosofia, literatura ou poesia, o insólito tem o poder de nos arrancar ao automatismo da experiência ordinária e nos fazer vislumbrar o paradoxo que consiste na estranha familiaridade das coisas, ou, inversamente, na sua familiar estranheza.

ἄτοπος

 

Na língua grega antiga, átopos é um adjetivo que possui uma ampla gama de significados: raro, estranho, insólito, inusitado, extravagante, esquisito, absurdo, extemporâneo, etc. Etimologicamente, seria “sem lugar”, “fora de lugar”.

Platão emprega o termo para descrever Sócrates em seus diálogos. No diálogo Teeteto, Sócrates diz: “Eu sou totalmente esquisito (átopos) e não faço senão criar aporias”. No Górgias, Cálicles, após ouvir de Sócrates um discurso sobre sarnas e coceiras, afirma: “Tu és absurdo (átopos), Sócrates”.

O substantivo que lhe corresponde, ἀτοπία (atopia), significa coisa inaudita ou inédita; novidade, raridade, estranheza, paradoxo.

Uma das possíveis traduções de átopos é “insólito”. Segundo o filósofo francês Clément Rosset (1939-2018), “insólito designa, segundo a etimologia, tudo o que é inusual e foge ao ordinário. A palavra mesma me diz algo de mais e de menos: ela me sugere, com efeito, algo raro, mas de uma rareza especial e incisiva que não se resume em uma simples média baixa na avaliação estatística da frequência dos seres.”

Após uma longa reflexão, Rosset conclui:

"Parece-me que um objeto insólito tem como característica principal a de romper com o conjunto dos objetos entre os quais figura e formar, por assim dizer, uma espécie única, aparecer como forasteira e sobreposta, ao modo de uma peça acrescentada ou de uma nota falsa: como um marciano tomando chá em um pub londrino, uma monja participando dos trabalhos do Partido Comunista (parece que há algumas), um trator agrícola pavoneando-se no meio de um salão burguês, como em Le Minotaure de Marcel Aymé, ou, enfim, como o pequeno detalhe que não se enquadra ao conjunto dos fatos a ele relacionados e que, por esta mesma razão, acaba chamando a atenção da polícia."

 

Cl. ROSSET, Principes de sagesse et de folie

Átopos denota singularidade, diferença, extravagância, esquisitice. Pode ser Sócrates ou Cioran. Como o absurdo, o paradoxo também é uma paixão. Átopos Editorial nasce dessa paixão e a ela se dedica. A atopia é a nossa divisa. A paixão do insólito nas letras.

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