MARCO LUCCHESI

Marco Americo Lucchesi é poeta, romancista, ensaísta, memorialista, tradutor, professor e editor brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1963, é uma das figuras de maior amplitude intelectual da literatura brasileira contemporânea. Sua obra caracteriza-se pelo diálogo constante entre poesia, filosofia, literatura comparada, história das religiões, ciência, música e matemática, além de uma extraordinária atividade como tradutor de línguas e literaturas diversas. É o sétimo ocupante da cadeira nº 15 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 3 de março de 2011 e empossado em 20 de maio do mesmo ano. Foi presidente da ABL nos exercícios de 2018, 2019, 2020 e 2021.
Vida e formação
Marco Lucchesi nasceu no Rio de Janeiro, filho de Elena Dati e Egidio Lucchesi, integrantes de uma família de origem italiana da Toscana. A herança italiana teve papel importante em sua formação intelectual: desde a infância, os versos da Divina Commedia, de Dante Alighieri, e de Orlando furioso, de Ludovico Ariosto, fizeram parte de seu universo cultural. Aos oito anos, passou a viver em Niterói, onde estudou no Colégio Salesianos de Santa Rosa. Estudou piano até os vinte anos com Carmela Musmano e canto com Domenico Silvestro.
Sua formação intelectual desenvolveu-se desde muito cedo. Ainda adolescente começou a publicar seus primeiros textos e estabeleceu relações com escritores e intelectuais que exerceriam influência importante sobre sua trajetória, entre eles Antonio Carlos Villaça, Nise da Silveira e Carlos Drummond de Andrade. Posteriormente, sua trajetória cosmopolita o colocaria em contato com personalidades de origens muito diversas, como Nagib Mahfuz, Umberto Eco, Mario Luzi, Paolo Dall’Oglio, Manglesh Dabral, Shuntarō Tanikawa e Giorgio Parisi.
Lucchesi graduou-se em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e posteriormente realizou o mestrado e o doutorado em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Realizou ainda pós-doutorado, com bolsa Capes/DAAD, no Petrarca-Institut da Universidade de Colônia, na Alemanha, onde desenvolveu pesquisas relacionadas à filosofia do Renascimento.
Professor e pesquisador
A atividade acadêmica de Lucchesi está estreitamente ligada à sua produção literária. Tornou-se professor da UFRJ e consolidou-se como professor titular de Literatura Comparada, desenvolvendo uma pesquisa de caráter marcadamente interdisciplinar. Seu campo de interesses ultrapassa os limites tradicionais dos estudos literários e inclui filosofia, teologia, história das religiões, música, astronomia, filosofia da matemática e artes. Foi também pesquisador do CNPq entre 2008 e 2026 e realizou atividades de pesquisa e docência em diversas instituições brasileiras e estrangeiras.
Sua relação com diferentes línguas é uma das características mais notáveis de sua formação. Lucchesi possui amplo conhecimento de mais de vinte idiomas e chegou a criar uma língua artificial, que denominou “laputar”. Essa extraordinária abertura linguística corresponde ao caráter cosmopolita de sua obra, que atravessa tradições literárias e filosóficas europeias, árabes, persas, indianas, russas, latino-americanas e orientais. Seus livros foram traduzidos para numerosas línguas, entre elas árabe, romeno, italiano, inglês, francês, alemão, espanhol, persa, russo, turco, polonês, hindi, sueco, húngaro, urdu, bengali, latim, japonês, sérvio, búlgaro, chinês e guarani.
O poeta
A poesia constitui o centro de sua produção literária. Desde os primeiros livros, Lucchesi desenvolveu uma poética caracterizada pela erudição, pelo cosmopolitismo e pela busca de uma linguagem capaz de aproximar mundos culturais aparentemente distantes. Dante, Rumi, a tradição mística cristã, a poesia persa e árabe, a literatura italiana, a filosofia e a ciência aparecem reiteradamente em sua obra.
Entre seus primeiros livros está Breve introdução ao Inferno de Dante, publicado em 1985, ainda no início de sua trajetória intelectual. Seguiram-se A paixão do infinito (1994), O sorriso do caos (1997), Saudades do Paraíso (1997), Teatro alquímico (1999), Os olhos do deserto (2000) e diversos outros volumes de poesia, ensaio e memória.
A poesia de Lucchesi é marcada por uma tensão entre unidade e diversidade. O poeta procura estabelecer correspondências entre tradições distintas, como se a literatura mundial constituísse uma grande biblioteca na qual línguas, religiões e épocas dialogassem umas com as outras. Essa tendência aparece particularmente em seu interesse por Dante, Rûmî, Vico, Ibn Arabi, Hölderlin, Trakl, Juan de la Cruz, Quevedo, Angelus Silesius, Iqbal e Primo Levi, entre muitos outros autores que traduziu ou estudou.
Em Domínios da insônia, publicado em 2019 como reunião de poemas novos e anteriores, sua produção poética alcança uma importante síntese. Mais recentemente, publicou Maví (2022), Poesia Mundi. Novos poemas reunidos (2025) e Corpo Nominal (2026). Poesia Mundi reúne livros anteriormente publicados, poemas revistos e inéditos, incluindo Quartetos, Mar Mussa e Al-Ma'arri: Vestígios.
O ensaísta e estudioso de Dante
Uma parte essencial da obra de Lucchesi é dedicada ao ensaio, especialmente à relação entre literatura, filosofia e espiritualidade. Seu interesse por Dante ocupa nesse conjunto uma posição privilegiada.
Em A memória de Ulisses (2006), Lucchesi desenvolve uma reflexão sobre memória, viagem, literatura e cultura, enquanto em Ficções de um gabinete ocidental (2009) amplia sua investigação sobre a tradição intelectual ocidental. Em Nove cartas sobre a Divina Comédia (2013; segunda edição ampliada em 2021), retorna diretamente à obra de Dante, propondo uma leitura epistolar da Commedia.
Outro aspecto importante de sua produção é o estudo das relações entre literatura e ciência. Seu pensamento recusa a separação rígida entre as duas culturas e procura mostrar como a imaginação científica, filosófica e poética pode participar de um mesmo movimento de conhecimento. Essa perspectiva explica a presença, em seus ensaios, de autores e temas que vão da literatura medieval e renascentista à matemática, à cosmologia e à física contemporânea.
O tradutor
A tradução ocupa um lugar central na atividade de Lucchesi. Ele traduziu autores provenientes de tradições linguísticas e culturais muito diferentes, entre eles Umberto Eco, Giambattista Vico, Boris Pasternak, Primo Levi, Rûmî, Hölderlin, Khlebnikov, Trakl, Juan de la Cruz, Quevedo, Angelus Silesius, Yunus Emre e Muhammad Iqbal. Entre seus trabalhos está a tradução da Ciência Nova, de Vico, além de traduções de poesia e literatura italiana, alemã, russa, persa, árabe e de outras tradições.
Essa atividade tradutória não constitui simplesmente uma ocupação paralela à sua poesia. Para Lucchesi, a tradução é uma forma de diálogo entre culturas e de expansão da própria experiência poética. Seu cosmopolitismo literário nasce em grande medida desse movimento contínuo entre línguas.
Recebeu o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, da Biblioteca Nacional, em 1996, e o Prêmio Jabuti de Tradução, em 2001. Também foi finalista do Jabuti de Tradução em 2008 por O canto da unidade, trabalho relacionado à poesia de Rûmî.
Romancista e memorialista
Embora a poesia e o ensaio ocupem posição predominante em sua obra, Lucchesi também se dedicou à ficção e à memória.
Seu romance O dom do crime, publicado originalmente em 2010, recebeu o Prêmio Machado de Assis da União Brasileira de Escritores e foi finalista de importantes prêmios literários. A obra estabelece um diálogo entre literatura, história e crime, incorporando elementos da tradição narrativa e da cultura brasileira.
Em Marina (2023), voltou à ficção, numa obra que foi selecionada pela revista Quatro Cinco Um entre os dez melhores livros publicados naquele ano.
Na literatura memorialística destacam-se Saudades do Paraíso e Os olhos do deserto, nos quais a memória individual se abre para experiências de viagem, encontros intelectuais, paisagens e tradições culturais.
Academia Brasileira de Letras
Lucchesi foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 3 de março de 2011, sucedendo o padre Fernando Bastos de Ávila na cadeira nº 15. Tomou posse em 20 de maio de 2011, sendo recebido pelo acadêmico Tarcísio Padilha.
Em dezembro de 2017, foi eleito presidente da Academia para o exercício de 2018. Aos 54 anos, tornou-se o mais jovem presidente da ABL dos setenta anos anteriores. Foi reconduzido à presidência nos exercícios seguintes, permanecendo no cargo de 2018 a 2021.
Durante sua atuação na Academia, esteve particularmente envolvido em projetos relacionados à literatura, à música, à leitura e ao diálogo cultural. Entre 2014 e 2021, foi responsável pelo programa Música de Câmara na Academia Brasileira de Letras. Também dirigiu a Revista Brasileira e participou de numerosos projetos editoriais e culturais da instituição.
Biblioteca Nacional e atuação cultural
A atividade de Lucchesi ultrapassou o espaço universitário e acadêmico. Entre 2006 e 2011, atuou na Biblioteca Nacional, na área de Coordenação Geral de Pesquisa e Editoração, onde esteve envolvido na preparação de catálogos, fac-símiles e projetos editoriais. Também foi membro do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2017 e dirigiu ou editou diversas revistas e coleções literárias.
Sua atuação cultural inclui ainda a organização de seminários, a curadoria de exposições, a participação em projetos editoriais e a colaboração em periódicos brasileiros e estrangeiros. Foi colunista de O Globo entre 2010 e 2018 e colaborou com publicações como o Jornal de Letras, de Lisboa, e a revista Humanitas.
Desde 2025, exerce a função de Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, ampliando sua atuação institucional no campo da política cultural, da preservação e da difusão do patrimônio bibliográfico brasileiro.
Direitos humanos e promoção da leitura
Uma dimensão importante de sua atividade pública é o trabalho em torno da leitura e dos direitos humanos. Lucchesi desenvolveu projetos literários e educativos em comunidades e prisões do Rio de Janeiro e participou de iniciativas voltadas à promoção da leitura em ambientes de privação de liberdade. A convite do Conselho Nacional de Justiça, integrou o grupo de trabalho responsável pela elaboração do Plano Nacional de Fomento à Leitura nos Ambientes de Privação de Liberdade.
Essa dimensão de sua atividade está relacionada à concepção da literatura como instrumento de abertura do mundo e de formação humana. A biblioteca, nesse sentido, não é concebida apenas como depósito de livros, mas como espaço de liberdade, encontro e transformação.


De Marco Lucchesi, a Átopos Editorial publicou Paisagem Lunar (2025), uma trilogia de aforismos composta por Trívia, Vestígios e Arena Maris.
Também publicou Διαφάνεια: Da beleza na matemática / On beauty in Mathematics (2025). Este volume bilingue, também de aforismos, apresenta (como denota o título) reflexões sobre a beleza da matemática. Tem-se aqui seis pontos em torno dos quais a beleza matemática é constituída: transparência, profundidade, dinâmica, brevidade, expansão e claridade.
