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ION BARBU

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Ion Barbu, pseudônimo literário de Dan Barbilian, foi um poeta e matemático romeno, uma das figuras mais singulares da cultura romena do século XX. Sua importância decorre justamente da coexistência, em sua obra e em sua personalidade intelectual, de duas vocações aparentemente distintas: a matemática, na qual realizou contribuições originais sobretudo à geometria e à álgebra, e a poesia, na qual se tornou um dos principais representantes do modernismo romeno e uma das expressões mais rigorosas do hermetismo poético. Nasceu em Câmpulung-Muscel, em 18 de março de 1895, e morreu em Bucareste, em 11 de agosto de 1961.

Dan Barbilian nasceu em uma família ligada à magistratura: era filho do juiz Constantin Barbilian e de Smaranda Șoiculescu. Desde os anos de escola demonstrou extraordinária aptidão para a matemática, publicando ainda jovem problemas e contribuições na revista Gazeta Matematică, importante publicação destinada à formação dos matemáticos romenos. Paralelamente à matemática, desenvolveu desde cedo interesse pela literatura e pela poesia.

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Em 1914, ingressou na Faculdade de Ciências da Universidade de Bucareste para estudar matemática. Seus estudos foram interrompidos pela Primeira Guerra Mundial, durante a qual cumpriu o serviço militar. Concluiu a licenciatura em 1921 e, nos anos seguintes, prosseguiu sua formação matemática na Alemanha, frequentando centros universitários como Göttingen, Tübingen e Berlim. Em Göttingen entrou em contato com alguns dos mais importantes matemáticos de seu tempo, entre eles David Hilbert, e conheceu figuras como Emmy Noether, além de estabelecer relações com matemáticos que posteriormente exerceriam influência significativa na matemática moderna.

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Sua carreira científica desenvolveu-se paralelamente à literária. Em 1926, tornou-se assistente de Gheorghe Țițeica na cátedra de geometria analítica da Universidade de Bucareste. Em 1929, obteve o doutorado em matemática, defendendo uma tese sobre a representação canônica da adição de funções hiperelípticas. A partir de então, consolidou sua carreira universitária e, em 1942, tornou-se professor titular de álgebra na Universidade de Bucareste.

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Como matemático, Barbilian produziu trabalhos sobretudo nos campos da geometria, álgebra, teoria dos números e fundamentos axiomáticos da matemática. Entre suas contribuições mais conhecidas encontram-se os estudos sobre a métrica de Barbilian, posteriormente associados aos chamados espaços de Barbilian, e suas pesquisas em geometria e estruturas algébricas. Sua produção científica foi extensa: publicou dezenas de estudos e artigos e participou de importantes congressos internacionais de matemática.

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O poeta Ion Barbu

 

Sua atividade poética desenvolveu-se com particular intensidade a partir do final da década de 1910. Barbilian adotou o pseudônimo Ion Barbu, derivado do nome originário de sua família, e sob esse nome tornou-se conhecido na literatura romena. Seu primeiro período de produção esteve ligado ao parnasianismo, com uma poesia caracterizada pelo rigor formal, pela concentração da imagem e pela valorização da construção estética. Seu primeiro poema foi publicado em 1918, e em seguida passou a colaborar com revistas literárias importantes, especialmente Sburătorul, de Eugen Lovinescu.

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A poesia de Barbu costuma ser dividida pela crítica em diferentes momentos. Inicialmente predominam os poemas de inspiração parnasiana; posteriormente surge uma poesia de caráter baládico e folclórico, marcada por elementos balcânicos, orientais e populares; por fim, sua obra alcança o hermetismo, em que a linguagem poética se torna extremamente condensada, simbólica e deliberadamente difícil.

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Essa evolução não corresponde, entretanto, a uma simples sucessão de estilos. O que permanece constante é a procura de uma poesia concebida como construção intelectual rigorosa. Para Barbu, matemática e poesia não eram atividades completamente estranhas uma à outra. A matemática oferecia-lhe um modelo de rigor, estrutura e abstração; a poesia, por sua vez, permitia explorar formas de conhecimento que não podiam ser reduzidas ao raciocínio matemático. Sua famosa concepção da poesia como uma espécie de equivalente espiritual da geometria tornou-se fundamental para a interpretação de sua obra.

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După melci e Joc secund

 

Em 1921, publicou seu primeiro volume poético, După melci ("Depois dos caracóis"), obra ainda vinculada a uma fase de transição de sua poesia. Seu livro fundamental, porém, é Joc secund ("Jogo segundo"), publicado em 1930. O volume reúne uma parcela relativamente pequena, mas decisiva, de sua produção poética e representa o momento de plena maturidade de sua estética hermética.

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O título Joc secund exprime uma concepção particularmente importante da poesia de Barbu: a realidade poética não constitui uma reprodução imediata do mundo empírico, mas uma segunda realidade, uma realidade transfigurada pela inteligência, pela forma e pela linguagem. A poesia procura alcançar, através da transformação das aparências sensíveis, uma ordem mais profunda e abstrata.

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Entre os poemas mais célebres de Barbu encontra-se Riga Crypto și lapona Enigel ("O rei Crypto e a lapônia Enigel"), uma narrativa poética de estrutura alegórica e simbólica, na qual o conflito entre diferentes formas de existência é apresentado através do encontro impossível entre Crypto e Enigel. O poema ocupa lugar central na literatura romena do século XX.

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Outro núcleo importante de sua poesia é o ciclo de Isarlâk, no qual a imaginação poética se volta para um universo balcânico, sensual, colorido e quase onírico. A crítica frequentemente identifica nessa fase uma aproximação com tendências que, embora não se confundam simplesmente com o surrealismo, rompem com o rigor parnasiano inicial e exploram uma imaginação mais livre e pitoresca.

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Matemática e poesia

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A singularidade de Ion Barbu está sobretudo na impossibilidade de separar completamente o poeta do matemático. Dan Barbilian e Ion Barbu eram duas manifestações de uma mesma personalidade intelectual. A matemática não constitui apenas uma profissão paralela à literatura: seus conceitos de estrutura, simetria, forma, transformação e abstração encontram correspondências profundas em sua concepção da poesia.

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Nesse sentido, Barbu procurou uma poesia que não fosse simplesmente expressão espontânea de sentimentos, mas uma construção formal. Seu hermetismo nasce em grande medida dessa exigência: a linguagem poética deve produzir uma realidade autônoma, dotada de relações internas próprias. Daí a extraordinária densidade de suas imagens, a sintaxe frequentemente condensada e o emprego de símbolos cujo significado não se deixa reduzir a uma interpretação imediata.

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Essa concepção aproximou sua poesia de autores como Mallarmé e Paul Valéry, cuja influência é reconhecida pela crítica, sobretudo no desenvolvimento de sua poesia hermética.

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Últimos anos

 

Depois da Segunda Guerra Mundial, Barbilian continuou sua atividade acadêmica e científica em Bucareste. Paralelamente à matemática, manteve uma atividade literária menos extensa, mas sua obra poética já havia adquirido posição canônica na literatura romena. Sua produção científica continuou até os últimos anos de sua vida, abrangendo geometria, álgebra e teoria dos números.

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Ion Barbu morreu em Bucareste, em 11 de agosto de 1961, aos 66 anos, e foi sepultado no Cemitério Bellu.

De Ion Barbu a Átopos Editorial publicou Margens da Noite, uma coletânea  de poemas com seleção e tradução de Marco Lucchesi.

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Segundo Lucchesi, A poesia de Barbu é uma galáxia aberta para o Mais. Um cosmos onde gravitam forças de interação e objetos astronômicos: objetos da língua no céu imaterial da poesia. Planetas errantes e muitos sóis, meteoritos velozes, na matéria escura do sentido, aglomerados onde brilham satélites com significantes fatais. Esse magnífico inventor de língua fundou um universo paralelo, lançando mão do romeno antigo e literário, sem abandonar a gravitação do presente. Barbu propõe deslocamentos gramaticais, elide formas da declinação, renova substantivos da religiosidade ortodoxa, os elementos míticos da tradição aldeã, sem dispensar a geometria.

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